O prazer de ouvir

eduardo
Não consigo ler os livros de Eduardo Galeano sem ouvir sua voz. É como sentar-se a uma mesa, frente a frente, e dar-lhe ouvidos. Suas palavras caminham juntas e formam belíssimas frases que, caso não prestemos atenção, deixam de dizer e logo se escondem, receosas do medo de não serem bem quistas. É isto que as move: o prazer de serem recebidas.
Meu primeiro encontro com Galeano foi nos anos iniciais da universidade, quando da necessidade de aprender mais sobre nós, povos latinos, e todo nosso carma. Encontrei-o na biblioteca, cabisbaixo, quieto e pensante. Logo que me aproximei, percebi que havia muita coisa a ser dita, mas, com receio de perguntar, de perturbar seu silêncio, fingi que procurava ali qualquer outra coisa quando, em poucos instantes, fui convidado a sentar-me. Apresentou-se. Disse tratar-se de um contador de histórias, nada mais. Não vou dizer que não aproveitei para perguntar-lhe se sabia algo sobre a América Latina. Foi uma ótima pergunta.
Foram horas e horas de histórias incríveis sobre como nos tornamos latinos e o que isso significa. Aprendi, ou melhor, reaprendi a valorizar nosso passado, os tortuosos caminhos que nos trouxeram até aqui. Ouvi sobre índios, impérios que ruíram, a riqueza da terra e a pobreza do homem, o doce açúcar e suas amargas raízes, e outras inúmeras e fascinantes histórias sobre nossos povos e costumes. Galeano nunca me deixou esquecer, a cada encontro, que nossa história foi marcada, desde cedo, por uma vontade imensa de ser feliz, de viver em harmonia, e que o preço a ser pago pela liberdade nos custou a capacidade de alcança-la.
Nossos encontros duraram vários dias, todos cheios de entusiasmo de sua parte e ansiedade da minha. Logo compreendi que não havia pergunta sem resposta, e esse foi uma dos maiores aprendizados. O que há, na verdade, são respostas que vagam livremente a procura de perguntas. Com o tempo, lá pelo décimo encontro, Galeano voltou-se para mim e, sem ao menos esperar, confessou ter contato tudo que sabia. Por uns instantes me mantive parado, olhando para ele, até que, depois de todo aquele tempo, todas aquelas historias, notei a razão de te-lo encontrado cabisbaixo, quieto, pensante: suas veias apresentavam-se abertas e o sangue ainda jorrava.
Nossa amizade perdura até hoje. Desde então, sempre que podemos, tomamos café e trocamos alguma prosa; claro que assumo somente a figura de ouvinte, o corpo da conversa é sempre ditado por ele. Não sei como mas ainda bem que assim se deu, estamos conseguindo trocar algumas palavras todos os dias. O fato é que, a cada vez, sempre aprendo algo novo. Disse ele uma vez que, pesquisando sobre os povos Maia, descobriu que os dias também possuem vida e que nós, seres humanos, somos seus filhos. Talvez por isso ele chame cada dia que nos encontramos por um nome diferente, e conte histórias belíssimas sobre cada um deles.
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