Século Vinte e On

trabalhadores1

(para Vinícius de Moraes e para a dimensão da poesia do Operário em Construção)

Era uma vez duas personagens. Uma delas se chamava Patron, e, a outra, se chamava Operarion. Cada uma delas, é claro, tinha sua própria cabeça e ambas eram demais de parecidas quando as observasse na forma. No entanto, a mente que abrigava cada uma delas (das cabeças) era tremendamente diferente da outra, elas possuíam lógicas diferentes, habilidades estratégicas diferentes, e diferentes compreensões de mundo e do humano. Para se entender este conto que agora escrevo, será necessária a intertextualidade no mais das vezes, porque se eu for explicar tudo o que desejo sem me usar dessa ferramenta, escreverei aqui centenas e centenas de páginas, e não sei se terei saco para isso, como também não sei se haverá leitores com saco para lê-las. Por isso, por preguiça, utilizo-me da intertextualidade. Assim sendo, muitas vezes será preciso que o leitor ou conheça aquilo que eu citar, ou vá conhecer, ora por meio de leituras de outras obras, ora assistindo a filmes, ora ouvindo músicas. Digo, então, que haverá citações e que entendo importante consultá-las ou delas se lembrar caso já as conheça. Além do que, se eu escrevesse explicando tudo, essas linhas deixariam de ser um conto, e virariam uma novela chata e metalinguística, ou um imenso romance, uma epopeia, sei lá! Portanto, comecemos já com isso para a compreensão da mente de cada uma das personagens. Para se compreender o funcionamento lógico da mente de Patron e de Operarion, é preciso conhecer um pouco ao menos de Marx, e do poema Operário em Construção, de Vinícius de Moraes, e também de Os Subterrâneos da Liberdade, de Jorge Amado. Dê-se uma olhadinha também no que fora a Revolução Industrial.
Enfim!
Patron e Operarion trabalhavam no mesmo local. Possuíam funções diferentes, e essas diferenças os escalonavam na propriedade empresarial e na vida cotidiana em algo que podemos chamar de hierarquia de humanização. É o mesmo que dizer que um era (ou se achava) mais humano do que o outro. Patron, então, um dia, soube que, lá no chão da fábrica, Operarion dizia coisas a alguns colegas de trabalho que, por coincidência ou não, tinham o mesmo nome. Chamavam-se, esses colegas de Operarion, Alunion. Todos eles se chamavam Alunion! Na fábrica, os Alunions trabalhavam num departamento que se chamava Classe. Na Classe, eles tinham de produzir. Para Patron, produzir significava fazer muitas e muitas peças parecidas ou idênticas. Essas peças deixavam Patron feliz, porque as usava para mostrar a seus clientes que ele era bom. A empresa de que estamos falando tinha como produto final um bem chamado Educacion. E, para conseguir produzir Educacion, Patron mandava Operarion mandar os Alunions fazerem as peças que eram partes de Educacion. Eram várias as peças: equacions, tabuadeons, conjugacions-verbons, decoreba-de-tabela-periodicon, decoreba-de-data-historicon dentre muitas outras peças. A cada cinquenta minutos, os Alunions tinham de produzir sistematicamente e continuamente um tipo de peça. E, a Operarion, cabia o dever de olhá-los e gritar para que eles (Alunions) fizessem sempre e sem conversar entre si muitas e muitas peças. (Para entender um pouquinho esse trabalho de Alunions, assista ao filme Tempos Modernos, com Charles Chaplin.) Mas, uma peça, e apenas uma, era produzida por Patron e por Operarion: a peça monologon. Porém, é preciso saber que quando Operarion estava na presença de Alunions, ele produzia monologon; contudo quando Operarion estava na presença de Patron, somente Patron produzia monologon. Aí, na presença de Patron, cabia a Operarion produzir exclusivamente escuton-caladus. Bom! Dizia eu linhas acima que Patron soubera que Operarion dizia algumas coisas a alguns de seus colegas de trabalho. Dizia tanto a alguns Alunions como também dizia a alguns de seus xarás Operarions, pois que tinha xarás. E, das coisas que dizia, o que mais dizia era que Alunions deveriam produzir outras peças que não aquelas. Sugeria que em vez de apenas equacions, tabuadeons, conjugacions-verbons, decoreba-de-tabela-periodicon, decoreba-de-data-historicon os Alunions produzissem também dialogons, reflexons, participacions, instrumentacions, novos-conceitons. Veja que escrevi logo atrás o advérbio APENAS, o que significa que Operarion até entendia a produção de algumas peças tradicionais (embora algumas extremamente arcaicas); mas sugeria que outras fossem ali produzidas. E não gostava muito do termo produzir, preferia o termo criar, porque via que geralmente o termo produzir significava muito mais reproduzir do que realmente produzir. Então, gostava do termo criar. Era isso que falava. É preciso ainda saber que antes de Operarion dizer a Alunions essas coisas, ele havia dito a Patron que assim pensava. E Patron o elogiava ao ouvi-lo! Elogiava-o, mas dizia que não!, não, isso era de uma mente brilhante, eram ideias muito boas, mas era coisa pra futuro, pra outro século! Operarion tentava dizer a Patron que não!, que aquelas coisas poderiam ser realizadas ali, sim! Mas, não, Patron não queria!
– Acho que isso vai mudar nosso produto final!, disse Patron, não teremos mais Educacion, teremos apenas Rebeldions! E não quero isso! Ninguém compra!
– Não!, dizia Operarion, teremos enfim Educacion!
Mas não adiantava! Patron não aceitava. E Patron temia perder um objeto que lhe era muito precioso e que ficava guardado em sua Sala. Esse objeto se chamava poderon. Patron tinha ideias metafísicas, meio anímicas, assim sobrenaturais, meio como que crianças que creem em super-heróis, ou meio como eu que creio em gnomos e fadas! E nessas crenças metafísicas de Patron, girava uma que o fazia temer a perda de poderon caso se produzisse a peça dialogon. Era a peça que Patron mais temia, embora ele nunca conseguisse vê-la de fato, nunca conseguiu tocá-la, admirá-la, senti-la, porque nunca a permitiu. Era uma peça proibida; pois Patron adorava a peça monologon e acreditava que a presença de uma destruiria a outra. E, a mente de Patron, pobre mente!, era incapaz de compreender a peça dialogon quando Operarion tentava apresentá-la. Temia. Era, de certa forma, covarde. Mas não de todo covarde, era mesmo incapaz de usar a peça dialogon, era incapaz de fazê-la porque não tinha nem ferramentas, nem habilidade para usar as ferramentas, e nem as partículas necessárias para confeccioná-la. Por causa disso, fugia de dialogon e preferia sempre mostrar a todos o seu monologon que o envaidecia e mantinha seu objeto sagrado em sua Sala: o poderon. Em uma coisa, entretanto, é preciso dar o braço a torcer, dar a mão à palmatória para a mente incapaz e medrosa de Patron: é que ele tinha razão – a confecção da peça dialogon poria em risco a existência do obelisco poderon. Só que surgiria um outro obelisco: libertacion. E a produção desse objeto (libertacion) seria bom até a Patron – que não sabe disso e não consegue entender – porque a presença de libertacion em todos os lugares libertaria Patron de sua dependência quase química do produto poderon. Poderon é a cocaína de Patron.
Bom, Operarion percebera logo que não adiantava apresentar seus protótipos de peças a Patron. Tentou, assim, mostrar a alguns de seus xarás Operarions. Ainda ali, suas incansáveis tentativas eram frustradas. Operarions também preferiam que se produzissem equacions, tabuadeons, conjugacions-verbons, decoreba-de-tabela-periodicon, decoreba-de-data-historicon. Embora, é preciso reconhecer, havia Operarions que compreendiam Operarion, e juntos tentavam (arduamente) difundir aquelas ideias perigosas que punham em risco o tal poderon de Patron bem como a estabilidade empregatícia desses Operarions meio suicidas. Mas, então, como Operarion viu que não adiantava falar com Patron e com alguns dos Operarions, começou a fazer as peças dialogons, reflexons, participacions, instrumentacions e novos-conceitons junto de Alunions. E Patron deixava enquanto nada chegava a ameaçar seu objeto poderon. Via de longe, quieto, absorto, e enviava espiões. Mas, devagar, percebia ameaças, e tentava parar Operarion. (Ouçam a música Opinião, de Zé Kéti, na voz de Maria Bethânia.) Até que um dia, qualquer coisa causou ameaça maior ao status-quo de Patron e à segurança de seu poderon, e Patron, então, rapidamente tirou Operarion do piso da fábrica e pô-lo na rua.
Operarion saiu, como tinha que sair, como saiu Tereza Batista Cansada de Guerra, comadre de Jorge Amado, após a morte do coronel, e andou para longe sem olhar para trás. Estátua de sal, não!
E aí, algumas manhãs depois, Operarion encontrou outro Patron, e a história se repetiu.
E aí, algumas manhãs depois, Operarion encontrou outro Patron, e a história se repetiu.
E, talvez, ainda se repita muitas vezes, até um dia Operarion ficar velho, e morrer.
Em algumas manhãs, Operarion tem um pouco de fome, em outras manhãs, Operarion tem um pouco de frio. Prèsque les misérables! Mas, uma coisa Operarion não tem: insônia. Todas as noites, Operarion dorme em paz, porque tentou mais um dia.

por Denis Renato

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