O que o fim de Cunha ensina sobre o Congresso Nacional

EDUARDO-CUNHA

Alguém já escreveu que o deputado ou senador brasileiro mais ingênuo e idiota é capaz de consertar um relógio suíço com uma luva de boxe num quarto escuro. Ou seja, não há bobos da corte por lá. E nem quem possa se dizer chefe ou dono daquele lugar.

A despeito da qualidade cada vez mais baixa, no Congresso coabitam homens e mulheres que são líderes em todos os cantos do país. Gente que foi vereador por vários mandatos, prefeito, deputado estadual, senador e mesmo governador e ex-presidente. Sarney deixou a vida pública agora. Mas antes de partir para os seus aposentos, saiu da presidência em 1990 e ficou senador desde lá até o fim de 2014. Collor, mesmo depois de impichado, voltou e continua por lá a fazer os seus negócios.

E quem conhece aquele lugar e tem a cabeça minimamente em cima do pescoço, age com prudência. Sabe que para reinar tem que fazer de conta que não é tão importante assim. E tem que ter capacidade de resolver problemas. Não de criá-los.

Quem pretenda ter condições de comandar ou a Câmara ou o Senado, no presidencialismo, não pode se armar até os dentes e brigar com o Executivo como se fosse um alucinado.

E foi isso que Eduardo Cunha fez. Mas sua suposta força vinha se esvaindo aos poucos, mesmo antes das graves acusações que vieram à tona na quinta-feira em depoimento de Júlio Camargo, confirmado por Youssef.

Quando Cunha conseguiu aprovar a redução da maioridade penal numa patética segunda votação com o celular em punhos e chamando deputados para votar, ele não estava ganhando poder. Mas demonstrando que começava a se tornar um anão na presidência.

Alguém que já agia mais com o fígado do que com a razão.

E muitos deputados cederam aos seu apelo para aprovar aquela emenda, mas já começaram a considerar que talvez estivessem embarcando numa canoa furada.

Entre outros motivos, por um muito objetivo.

Quando alguém se elege deputado ou senador, infelizmente, quer se tornar uma voz da sua região junto ao Executivo e vice-versa. São poucos os que estão em Brasília para representar posições. A grande maioria não está ali nem a passeio e nem por ideologia.

Ou seja, essas pessoas não estão dispostas a abrir guerra contra o governo. Porque sabem que seu poder junto a prefeitos, vereadores e deputados estaduais é o de intermediar vantagens com o governo federal. Sem os tais cargos, as tais emendas parlamentares, os tais projetos e outras coisas do gênero, se tornam menos influentes.

Uma grande liderança ainda pode abdicar disso. Quem é do chamado baixo clero, não.

Cunha prometeu a esse segundo grupo ser seu interlocutor a partir da presidência da Câmara com a presidência da República. Prometeu tornar aquele grupo bem mais importante. Mais forte. Prometeu que com a faca no pescoço do governo iria conseguir arrancar muito mais recursos e cargos do que outros presidentes da Casa.

E depois que venceu no primeiro turno a eleição da Casa, seguiu o seu plano sem olhar para o lado. E num primeiro momento parecia que tinha o controle do processo político.

Sua situação começou a se complicar quando a pedido de Lula, Dilma tirou Pepe Vargas (PT-RS) da articulação política e nomeou o vice-presidente Michel Temer.

A opção foi de alto risco, mas teve um significado que só hoje fica claro. Temer se tornou o filtro de Cunha. O vice-presidente da República que também é do PMDB não poderia ser confrontado pelo presidente da Câmara. E tinha como operar as negociações sem necessariamente consultá-lo. Ou seja, o governo poderia tirar Cunha desse jogo das nomeações e das emendas. Fundamental para que pudesse ter poder de barganha com os deputados.

Por esse motivo que nas últimas semanas o presidente da Câmara repetia quase como um mantra que era hora de Temer sair da articulação política. Dizia que isso era necessário porque o governo não cumpria os acordos. Mas na verdade queria ele ser o único negociador da Câmara com o governo.

O fato é que no sistema político brasileiro não há líder forte no parlamento que não tenha uma ponte forte com o Executivo. Isso vale para o nível municipal, estadual ou federal. Mesmo em cidades pequenas são poucos os parlamentares eleitos que estão dispostos a ficar quatro anos na oposição. Mesmo os governos fracos costumam ter ampla maioria no legislativo.

Por isso Cunha precisa manter o discurso do impeachment vivo. Sem isso, já não tinha tanta coisa a oferecer para a sua base parlamentar. Mas agora que se tornou um investigado, sua base sabe que ele não tem condição alguma de levar esse processo em frente. E muito menos de ser alguém para forçar o governo a fazer o que quer que seja.

O resultado isso é que Cunha já foi avisado por seus aliados que vai ter de sair de fininho. Que vai poder fazer seu teatro agora, mas que não poderá colocar tudo a perder.

Esse discurso de que vai explodir o governo é conversa para boi dormir. Mesmo se comportando como um maluco, Cunha não poderá agir como Roberto Jefferson. O petebista era um outsider. Agia por si e mandava no seu partido. Cunha é do grupo de Cabral, Pezão e Piccianni. Esse pessoal deve estar atordoado com as investigações da Lava Jato e não quer que ela avance mais do que já avançou.

Eles são profissionais e sabem que se Cunha continuar a trucar contra o MP e o STF, a coisa pode ficar ainda pior.

Por isso, o governador Pezão foi tão rápido no gatilho ao se distanciar do aliado. Deu uma entrevista logo depois do discurso de rompimento do presidente da Câmara, se posicionando a favor de Dilma. “Eu sou solidário à presidenta Dilma, a gente precisa governar. A gente não pode misturar as coisas.”

O recado de Pezão é claro, Cunha é passado. E se quiser seu apoio para enfrentar a investigação terá que parar de fazer loucuras. Ou seja, a tática kamikaze do fanfarrão já foi derrotada.

O que o episódio Cunha à frente do Congresso ensina é que a cadeira da presidência do legislativo nacional não é para chantagistas amadores. E nem para tresloucados arrogantes. Pode-se ser o maior bandido do mundo e ficar ali agindo como um santo. Isso é até aceitável. Mas fazer de conta que é o chefe dos escoteiros e tratar todos os seus colegas como meninas e meninos de grupo escolar, isso não pode.

Na primeira derrapada, eles vão olhar para você e dizer: vire-se. Foi o que aconteceu com Cunha ao ser denunciado.

O que lhe restou foi anunciar seu rompimento patético com o governo ladeado por um deputado inexpressivo do PSC de Sergipe. E tendo que ver como manchete dos portais não apenas sua suposta nova posição, mas o comunicado do PMDB dizendo que aquela decisão era pessoal e não do partido.

O House of Cunha é muito mais realista do que o House of Cards. Na série, Frank Underwood faz a todos de gato e sapato. No parlamento brasileiro, todos fazem de conta que são gato e sapato. Mas apenas até o capítulo 2 do seriado.

por Renato Rovai

Fonte: Revista Fórum – Ed. 205

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