Sobre ser professora e gostar disso

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Já passei por situação de grande estranhamento ao responder sobre meu local de trabalho (sempre acham que direi o nome de uma instituição de ensino superior, já que sou professora). Quem não me conhece raramente espera que eu diga que leciono em escolas públicas e que dou aulas para alunos no ensino médio. Depois de passarmos por um longo período de greve e sermos espezinhados pelo governo estadual, então, me lançam olhares até com certa pena.

Entendo o estranhamento e até mesmo esse olhar de “compaixão” que algumas pessoas me lançam, outras são mais extremas e perguntam por que perco meu tempo com a educação dos filhos dos outros, já fui chamada de babá de adolescente. Penso que isso se deve a uma construção negativa do que é o espaço escolar, que culpabiliza muita gente e exime de responsabilidade quem, de fato, deveria mudar essa realidade para melhor.

Quando fiz minha pesquisa de mestrado, adentrei o espaço escolar com o olhar crítico próprio de quem procura respostas. Para além das relações travadas, dos embates de egos e saberes que ocorrem, como em qualquer campo, li muita coisa a respeito de ser professor. Função, postura desejada, sonhos, metas, ideologias; enfim, tudo que me aparecia na frente que pudesse me indicar caminhos para o desenrolar da minha pesquisa.

Ao final cheguei a acreditar que não teria ânimo para voltar para a sala de aulas, os números são assustadores, os males que acometem a saúde dos profissionais desse campo são incontáveis, alguns nem diagnóstico certo têm, a violência, o medo, a sobrecarga de funções, o trabalho que é levado para casa. Após a minha banca de defesa, uma professora que foi assistir disse que tinha ficado com muita pena, pois “a pesquisa vai tirar você, uma grande professora, da sala de aulas. Você me parece muito decepcionada com o campo!”.

Mas contrariando até o meu próprio pessimismo, voltei. Voltei porque apontei os problemas, passei longe de uma possível solução e olhe que meu tema nem tinha muito a ver com as mazelas que atingem a educação como um todo. Voltei porque gosto de estar em sala de aulas, me sinto bem com meus alunos, adolescentes barulhentos, que fazem perguntas repetitivas e irritantes.

Mas voltei, principalmente, porque ainda acredito que a educação é capaz de transformar os sujeitos. Minha pesquisa me revelou um quadro muito pesado, mas me mostrou o quanto ainda existem bons professores trabalhando, dedicados, engajados e com vontade de promover a mudança na realidade caótica e desigual dessa sociedade.

Quando um aluno chega até mim e confidencia uma situação de opressão vivenciada, sei que o fez porque se sentiu seguro, porque desperto respeito e confiança. Da mesma forma, quando eles contemplam o ensino superior como uma possibilidade, seja em qualquer área, isso já é uma conquista para mim também. Mas tem aqueles que seguem em frente e entram na universidade, esses me realizam.

Não posso negar que temos muitas decepções e poucas alegrias, mas afinal raros são os momentos da vida em que temos mais alegrias que decepções, não é?
Alguns poderão dizer que sou utópica, que não é possível transformar algo que já está falido, penso que desistir da educação é desistir do futuro e ainda não estou preparada para isso.

Já li várias vezes diferentes pessoas dizendo que ser professor é ruim, que a escola é um lugar horrível, violento, criminoso, que ninguém quer ser professor. Mas o que vi e vejo é muita gente encarando esse “purgatório”, seja nas escolas, acompanhando estagiários e alunos dos projetos de iniciação à docência.

Em uma escola em que trabalho, apenas no período da manhã, há três professores recém-formados que nunca puseram o pé numa sala de aulas além do período de estágio, cheios de gás. Assim como há outros com muitos anos de janela que continuam acreditando, há aqueles que, mesmo afastados das turmas por conta de umas dessas síndromes que nem psicólogo dá conta, dizem que preferiam estar em sala de aulas. Onde estaria o problema então?

Quando me deparo com a fala de que ninguém quer ser professor, penso que precisamos ir um pouco mais longe na reflexão. Não basta querer ser professor, precisamos que o Estado queira ter bons professores em sala de aulas, que promova políticas comprometidas com a formação dos sujeitos, que olhe a realidade social a partir da periferia, que se preocupe de fato com a falta de profissionais formados e a evasão dos cursos de licenciatura, que estruture as universidades para formar bons docentes.

Ou seja, não querer ser professor não se resume apenas nas mazelas de dentro da escola, mas daquelas oriundas de fora para dentro e de cima para baixo. A escola reflete a realidade social na qual está inserida, ela não é uma ilha isolada, onde todos os males do mundo se encontram. A forma como a sociedade se organiza irá interferir na forma como esta irá atuar para formar os novos sujeitos.

Para além de pensar a escola enquanto estrutura pronta, precisamos analisar as condições estruturantes que lhe dão base. O professor e sua formação, atuação e capacidade de promover uma educação de qualidade são apenas um elemento dessa base. São sujeitos que também possuem uma vida social, têm planos e sonhos que ficam vinculados à área escolhida, como qualquer outro profissional.

No entanto, o que parece é que tanto a sociedade civil quanto o Estado nos tiram essa característica humanizada e nos inserem no contexto escolar como se fôssemos apenas mais um móvel que, depois de certo tempo de uso, sem manutenção apresenta seus defeitos, então é jogado num canto e substituído por outro. O problema, neste caso, é que as peças para a troca estão ficando cada vez mais raras. E a culpa é de quem?

Por Eliane Oliveira

Fonte: Revista Fórum – Ed. 214

* Eliane Oliveira é mestre em Ciências Sociais e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros (NEIAB) da Universidade Estadual de Maringá/PR (UEM), além de professora da sociologia da rede pública e particular e feminista negra

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