Quando vão começar a queimar livros?

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Em todo o País multiplicam-se os vetos impostos pelas Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas aos planos de educação, vetando qualquer menção à chamada “ideologia de gênero”. Simplesmente retiram dos textos debatidos por educadores e setores da sociedade qualquer menção ao trabalho em sala de aula por professores e alunos sobre o respeito à diversidade, seja sexual, racial, religiosa ou social.

E se não bastasse, multiplicam-se, também, projetos de lei que estabelecem a proibição do que chamam de “ideologias estranhas” em sala de aula, chegando ao extremo de se propor a prisão de professores que tentem influenciar seus alunos com tais ideologias.

“É grave que parlamentares decidam em nome da sociedade impor às escolas e seus educadores restrições ao exercício do magistério e ao currículo escolar”

É grave que parlamentares decidam em nome da sociedade impor às escolas e seus educadores restrições ao exercício do magistério e ao currículo escolar. Ainda mais grave por se ocultar por trás do que chamam de “interesses da sociedade” nada mais do que a crença religiosa ou concepções ideológicas que não se explicitam para a população, não são debatidas com o magistério, as universidades e setores organizados da sociedade.

Ofensiva Conservadora

E essa ofensiva conservadora ou reacionária explicita o quanto a sociedade brasileira está anestesiada diante da tragédia que cotidianamente denuncia a verdadeira barbárie que nos assola, e que tem relação direta com essas medidas adotadas por esses parlamentares.

Estatísticas apontam que ocorre um linchamento por dia no Brasil, causando a morte de supostos criminosos, delinquentes ou marginais. Quase todos negros, todos pobres.

Os linchadores nada mais fazem do que reproduzir o mesmo método adotado pelas forças armadas responsáveis pela “segurança pública”, que em 2014 registraram oficialmente pelo menos 2.526 mortes de civis cometidas por policiais militares em serviço, uma média de sete mortes por dia.

O Grupo Gay da Bahia (GGB) no Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais no Brasil relativo a 2014, denunciou que ocorreram no ano 326 mortes de gays, travestis e lésbicas no Brasil, incluindo nove suicídios. Um assassinato a cada 27 horas. Um aumento de 4,1 % em relação ao ano anterior.

Estudos realizados por agências internacionais, indicam que o Brasil é o campeão mundial de crimes motivados pela homo/transfobia, ocorrendo em nosso país 50% dos assassinatos de transexuais registrados no mundo.

Indígenas

A situação dos povos indígenas no Brasil é extremamente grave. Segundo o relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil”, elaborado e divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário), em 2014 houve um crescimento de 130% no número de índios assassinados em relação a 2013. Foram mortos 138 índios em 2014, enquanto que em 2013 foram registradas 53 mortes violentas. Essas mortes são provocadas por conflitos graves, decorrentes de disputa fundiária, confinamento em reservas pequenas e a introdução de bebida alcoólica em áreas indígenas.

E no campo a tragédia dos que lutam por um pedaço de terra para produzir parece não ter fim, apesar das declarações de representantes do governo que afirmam não existir latifúndio no Brasil. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 2014 ocorreram 34 assassinatos no campo, com a morte por pistoleiros de trabalhadores sem-terra, posseiros, pequenos agricultores e lideranças sindicais. E a impunidade marca esses crimes, raramente os mandantes e executores são presos e condenados.

Abortos Ilegais

Estudo realizado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro estima em 865 mil abortos ilegais realizados no Brasil em 2013. E na rede pública de saúde foram internadas 205 mil mulheres tendo por causa complicações decorrentes da interrupção da gravidez. A criminalização do aborto, e a ausência de um debate público e responsável sobre saúde pública e a autonomia das mulheres força centenas de milhares delas, quase todas pobres, a recorrerem a “clínicas” sem nenhuma condição de higiene e segurança. Esse contexto é que coloca o aborto como a quinta causa da mortalidade materna no País.

“Raramente nessas comunidades circulam portadores de textos. Inexistem bibliotecas ou equipamentos públicos voltados para a cultura e o lazer de seus moradores. Mais ainda, desconhecem qualquer programação cultural existente na cidade, que por sua vez ocorre na área central, distante dos bairros periféricos”

E o que é que tudo isso tem a ver com a discussão dos planos de educação?
 Alguns anos atrás participei de uma pesquisa com um grupo de escolas localizadas na periferia de uma cidade. O resultado demonstrou que no final da semana os pais tinham como lazer o campo de futebol ou o boteco, bebendo e jogando dominó ou bilhar. As mães ficavam em casa assistindo televisão. E é a televisão e o rádio os meios de informação de todos.

Lazer e Cultura

E raramente nessas comunidades circulam portadores de textos. Inexistem bibliotecas ou equipamentos públicos voltados para a cultura e o lazer de seus moradores. Mais ainda, desconhecem qualquer programação cultural existente na cidade, que por sua vez ocorre na área central, distante dos bairros periféricos. Mas mesmo que soubessem, ainda existe a barreira da exclusão econômica pois 52% das famílias com renda familiar de até um salário mínimo não podem utilizar meios de transporte coletivo por não terem como arcar com o custo das passagens.

Esse cenário revela um dado preocupante, que é o poder dos programas veiculados pelas emissoras de televisão na formação cultural, política e ideológica dos setores mais pobres da população, que constituem a grande maioria na nossa sociedade.

E também os programas policiais, que direta ou indiretamente pregam o bordão “bandido bom é bandido morto”, ou que “direitos humanos só protegem os bandidos”. Ou os programas mantidos por organizações evangélicas que pregam dia e noite o preconceito explícito contra a população LGBT e tudo o que fere seus interesses religiosos e econômicos.

Escola

Para as crianças que frequentam as escolas públicas, e mesmo seus pais ou responsáveis, não existe outro local que possa lhes garantir o acesso ao conhecimento e a ampliação do universo cultural que não seja a própria escola. E muitas vezes até mesmo para a equipe escolar.

Em 1998 o Ministério da Educação (MEC) distribuiu para todos os professores das escolas públicas os Parâmetros Curriculares Nacionais, que na apresentação explicitava os objetivos a serem alcançados na implementação de uma proposta curricular:

• apontar a necessidade de unir esforços entre as diferentes instâncias governamentais e da sociedade, para apoiar a escola na complexa tarefa educativa;

• mostrar a importância da participação da comunidade na escola, de forma que o conhecimento aprendido gere maior compreensão, integração e inserção no mundo; a prática escolar comprometida com a interdependência escola-sociedade tem como objetivo situar as pessoas como participantes da sociedade — cidadãos — desde o primeiro dia de sua escolaridade;

• contrapor-se à ideia de que é preciso estudar determinados assuntos porque um dia eles serão úteis; o sentido e o significado da aprendizagem precisam estar evidenciados durante toda a escolaridade, de forma a estimular nos alunos o compromisso e a responsabilidade com a própria aprendizagem;

• explicitar a necessidade de que as crianças e os jovens desenvolvam suas diferentes capacidades, enfatizando que a apropriação dos conhecimentos socialmente elaborados é base para a construção da cidadania e da sua identidade, e que todos são capazes de aprender e mostrar que a escola deve proporcionar ambientes de construção dos seus conhecimentos e de desenvolvimento de suas inteligências, com suas múltiplas competências;

• apontar a fundamental importância de que cada escola tenha clareza quanto ao seu projeto educativo, para que, de fato, possa se constituir em uma unidade com maior grau de autonomia e que todos que dela fazem parte possam estar comprometidos em atingir as metas a que se propuseram;

• ampliar a visão de conteúdo para além dos conceitos, inserindo procedimentos, atitudes e valores como conhecimentos tão relevantes quanto os conceitos tradicionalmente abordados;

• evidenciar a necessidade de tratar de temas sociais urgentes — chamados Temas Transversais — no âmbito das diferentes áreas curriculares e no convívio escolar;

• apontar a necessidade do desenvolvimento de trabalhos que contemplem o uso das tecnologias da comunicação e da informação, para que todos, alunos e professores, possam delas se apropriar e participar, bem como criticá-las e/ou delas usufruir;

• valorizar os trabalhos dos docentes como produtores, articuladores, planejadores das práticas educativas e como mediadores do conhecimento socialmente produzido; destacar a importância de que os docentes possam atuar com a diversidade existente entre os alunos e com seus conhecimentos prévios, como fonte de aprendizagem de convívio social e como meio para a aprendizagem de conteúdos específicos.

Passados mais de quinze anos da publicação dos PCN, que à época encontrou resistências por parte de alguns setores da academia, é evidente que houve um grande retrocesso na educação e na nossa sociedade.

Mercado

Na educação básica temos o avanço das multinacionais do setor editorial controlando o mercado de livros didáticos, que consome ao ano mais de R$ 1 bilhão dos recursos do MEC, e o crescimento cada vez maior das empresas que vendem pacotes educacionais, surfando na onda das avaliações externas, dos indicadores de qualidade que servem como instrumentos de propaganda eleitoral.

Na sociedade a supremacia política e ideológica dos setores que querem o controle das escolas e dos educadores como meio de dirigir a formação a ser dada às crianças e adolescentes.

“Na educação básica temos o avanço das multinacionais do setor editorial controlando o mercado de livros didáticos, que consome ao ano mais de R$ 1 bilhão dos recursos do MEC, e o crescimento cada vez maior das empresas que vendem pacotes educacionais”

E é inegável que nesses quinze anos, quase treze com um governo dito democrático e popular, houve um vazio político e cultural que abriu todos os espaços possíveis para que os defensores do retrocesso ocupassem cada vez mais esse vazio, se impondo quase que como única possibilidade de (de)formação para os setores mais pobres da população. E antes que digam já me adianto: fazer dos mais pobres consumidores não significa dar-lhes as condições necessárias para que se constituam como cidadãos e sujeitos protagonistas de um processo transformador que rompa a roda da exclusão e opressão.

E como professor de história de uma escola da periferia de Salvador, com trinta e quatro adolescentes do ensino médio, sendo trinta e três negros, perguntei quantos eram descendentes de africanos. Apenas quatro levantaram as mãos. Perguntei o motivo de todas as meninas alisarem os cabelos e as respostas dadas foram que “cabelo liso é mais bonito”, “cabelo crespo parece sujo”. E mais da metade eram evangélicos. E quase todos eram contra o governo Dilma.

Recuo

Perdemos mais de uma década recuando, como no caso das cartilhas produzidas pelo MEC para os professores trabalharem o respeito à diversidade nas escolas, e que setores evangélicos chamaram de “kit gay”, e de tanto recuar agora vemos esses setores obscurantistas imporem aos planos de educação o veto a qualquer possibilidade de se dar às nossas crianças e adolescentes uma formação ética e cidadã, e ainda colocando sob as cabeças dos professores a ameaça de prisão. Se continuarmos recuando, chegará o dia que irão queimar em praça pública os livros que considerarem indesejáveis. E se recuarmos ainda mais chegará o dia em que queimarão em praça pública homens e mulheres que considerem indesejáveis.

E para finalizar, um texto escrito por uma amiga professora no início do desse século, para ilustrar esses tempos de reduções, seja da idade penal, do conceito de democracia, de direitos ou de sonhos. E redução da própria humanidade.

Bonezinho Preto
Margareth Buzinaro

Não era uma vez, por ser ainda.
Quem um dia deu existência, ciência ao “Era uma vez” tão sonoro e bem vindo aos nossos ouvidos, de certo não pensou dar à sua criação tamanho significado, tamanho sentido às coisas do tempo, às coisas de contar coisas…
Vejo-me, então, aqui, querendo marcar o tempo de ser uma vez. Ser, ainda! O quanto bom ou ruim isso seja.
É uma vez, assim, um garotinho ingênuo e doce cujo apelido pelo qual tem sido chamado é “Bonezinho”, dado um desses, preto, que muitos meninos como ele desfilam encobrindo a cabeleira crespa ou a cabeça zerada.
Bonezinho Preto, como muitos, que por mais que tentemos, não temos a devida compreensão, está aí, no mundo, sem eira nem beira, de déu em déu, no lusco-fusco das manhãs ou nos breus das noites das periferias das grandes cidades, às voltas com um nada na vida.
Não tendo mãe que o mande levar seja o que for a uma avó que nem sabe, nem florestas para se distrair em pegar flores ou frutas silvestres, pega latinhas ao longo caminho dos cestos de bares, ou sacos de lixo de lares que nunca viveu. Ou nos para com os olhos colados ao vidro do carro, cada vez menor, vendendo uma bugiganga qualquer, ou com um frasco de água suja e uma “flanelinha”, num farol assustado.
Nos caminhos por onde passa, tem visto muitos lobos. Não os lobos dos “Era uma vez”; os lobos do é, ainda. Lobos esses, que por mais que tentemos, não temos a devida compreensão, de por qual e total falta de escrúpulos, moral ou Deus, perseguem, exploram, castigam meninos de bonezinhos pretos (e azuis, amarelos, vermelhos…).
Teriam sido esses lobos, meninos outros, de bonezinhos pretos, algum dia?
Qual mistério cerca essa vida!
Às vezes Bonezinho Preto vai à escola.
Bonezinho Preto vai à escola…
Bonezinho Preto vai à escola…
Bonezinho Preto vai à escola…
Mas por alguma causa, nunca chega. Nunca está lá de fato.
E, não tendo mãe, avozinha, florestas e flores, lápis ou letra, guloseimas ou sonhos, sob a ameaça de lobos e “lenhadores” da lei; nem porque ser ou saber, não tem também, vez. Porque essa aldeia também não é a sua.
Penso se pensar Chapeuzinho de boné, condenado ao não futuro, seria mais uma tentativa de vitimizar os delinquentes, de justificar o incompreensível, ou rezar…
Mas… Meninos nascem inocentes!
E creio, então, que queria mesmo era saber que parcela me cabe de mãe, avó, lobo, lenhador ou mera vitrine, nesse tempo de ser uma vez.
E, talvez, saber de Bonezinho Preto:
– Bonezinho Preto, mas que nariz enorme você tem…
– É para cheirar melhor… esse seu perfume de quem tem mais!
– E que orelhas grandes você tem!
– São para ouvir hip-hop ou o RAP do mano D’20… e não cantigas de roda.
– E que olhos avermelhados, que olhar denso, brilhante você tem!
– São para Sebastião Salgado fotografar.
– E que mãos e braços enormes você tem, Bonezinho Preto!
– São para me vingar… abraçando-lhe um dia, num abraço carente e quente. Se Portinari estivesse aqui, talvez os pintasse.
– E essa boca tão enorme Bonezinho?
– Para gritar e quem sabe padre Júlio Lancelotti me ouvir… Quem sabe, Frei Betto de mim falar”.

por Walter Takemoto

Fonte: Caros Amigos – 15/08/2015

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