Herbicida da Monsanto estaria provocando doença renal em trabalhadores

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Uma epidemia de uma doença desconhecida, que destrói os rins e tem levado à morte milhares de agricultores em várias partes da América Central e Ásia pode estar relacionada ao herbicida glifosato, vendido sob a marca Roundup, da Companhia Monsanto, indústria multinacional de agricultura e biotecnologia, com sede nos Estados Unidos. Apesar dos alertas dos cientistas sobre os perigos da enfermidade, os EUA não estariam reconhecendo a gravidade da questão.

Há anos, a comunidade científica tenta desvendar o mistério da epidemia de doença renal crônica, que já atingiu países da América Central, além da Índia e Sri Lanka, situados no continente asiático. A doença acomete agricultores pobres que realizam trabalho braçal pesado em más condições de vida e trabalho, em localidades de climas quentes. Em todas as ocasiões em que a enfermidade foi diagnosticada, os trabalhadores haviam sido expostos a herbicidas e metais pesados.

Essa enfermidade é conhecida como CKDu (Doença Renal Crônica de causa desconhecida). Tal afecção dos rins não resulta de diabetes, hipertensão ou outros fatores de risco relacionados à dieta. Diferentemente do que acontece na doença renal ligada a essas debilidades, muitos dos danos da CKDu ocorrem nos túbulos renais, o que sugere uma etiologia tóxica, ou seja, causada por infecção.

Hoje, a CKDu é a segunda maior causa de mortalidade entre os homens de El Salvador, situado ao norte da América Central. Com população de 6,2 milhões de habitantes em área territorial de 21 mil km2, o menor país densamente povoado do subcontinente apresenta, atualmente, a maior taxa de mortalidade por doença renal no mundo. Os vizinhos centro-americanos Honduras e Nicarágua também apresentam taxas extremamente altas de mortalidade por doença renal. Em El Salvador e Nicarágua, mais homens estão morrendo por CKDu do que por HIV/AIDS, diabetes e leucemia juntas.

Na Nicarágua, a epidemia atinge, principalmente, trabalhadores do setor de cana-de-açúcar. No país, que exporta 40% de seu açúcar para os EUA, a esperança de vida de um canavieiro oscila em torno de 49 anos. A causa dessas mortes prematuras se deve à Doença Renal Crônica. Tanto é que, nas planícies do país, região de fartas plantações de cana-de-açúcar, uma pequena comunidade chamada La Isla já testemunhou tantos desses casos que tem sido denominada La Isla de las Viudas (“A Ilha das Viúvas”, em português).

Além da América Central, a Índia e o Sri Lanka foram duramente atingidos pela epidemia. No Sri Lanka, mais de 20 mil pessoas morreram por CKDu nas últimas duas décadas. No estado indiano de Andhra Pradesh, mais de 1,5 mil pessoas receberam tratamento para a doença desde 2007. Como a diálise e o transplante de rim são raros nessas regiões, provavelmente, a maioria dos que sofrem de CKDu irá morrer da doença renal.

EUA não reconhecem gravidade do caso

Apesar das graves perdas impostas à saúde dos agricultores atingidos nos vários países, poucos profissionais da medicina estão cientes dos riscos da CKDu. Catharina Wesseling, diretora regional do Programa Saúde, Trabalho e Ambiente (Saltra) na América Central, pioneiro no estudo do surto, afirmou que nefrologistas e outros profissionais da saúde pública dos países ricos não estão familiarizados com o problema. “Ou duvidam inclusive de que ele exista”, disse. Durante a Cúpula da Saúde de 2011, realizada na Cidade do México, os EUA chegaram a rechaçar a proposta dos países da América Central, que teriam listado a CKDu como uma das prioridades para as Américas.

Como o corpo humano é afetado

Patenteado em 1964 pela Stauffer Chemical Company, indústria estadunidense de herbicidas manufaturados, o glifosato foi introduzido como um agente descamador, sendo usado, primeiramente, na remoção de depósitos minerais da tubulação das caldeiras e de outros sistemas de água quente.

O complexo glifosato-metal pesado pode entrar no corpo humano de diversas maneiras: ingerido, inalado ou absorvido através da pele. A substância age como um Cavalo de Tróia, permitindo que o metal pesado a ele ligado evite sua detecção pelo fígado. Assim, esse complexo chega aos túbulos renais, onde a alta acidez permite que o metal se separe do glifosato. O cádmio ou o arsênio causam, então, danos aos túbulos renais e a outras partes dos rins, o que, ao final, resulta em falência renal e, com frequência, em morte.

A Monsanto patenteou o glifosato como herbicida na década de 1970 e o tem usado sob a marca “Roundup”, desde 1974. Em 2005, os produtos com glifosato da Monsanto estavam registrados em mais de 130 países, para uso em mais de 100 tipos de cultivo. Em 2013, o glifosato era o herbicida com maior volume de vendas no mundo.

por Marcela Belchior

Fonte: Brasil de Fato – 20/08/2014

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