Deus viu que isto era bom

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Um dia, uma daquelas forças que nos movimentam para lugares e momentos incompreensíveis me levaram ao quarto de minha mãe. No criado-mudo começo a folhear de um tudo, páginas já amarelas do manuseio constante. Sentei-me a folhear os rabiscos e grifos e de lá saltavam palavras firmes, frias e enérgicas… Deus chamou o elemento árido TERRA, e ao ajuntamento das águas MAR. E Deus viu que isto era bom. Continuei detida na leitura. Deus disse: Produza a terra seres vivos segundo sua espécie. E como num passe de mágica bíblico, assim se fez! E Deus sente-se orgulhoso!

Caminhando com meus olhos me deparo com o Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. E Deus continuou e profetizou: Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra. Deus gostou, orgulhou-se e descansou. Deus, em sua sabedoria onipresente, muito nos ensinou sobre a geoquímica dos solos e dos seres vivos, quando esmiuçamos a composição de nossas células e partículas mais microscópicas verificamos que nós seres humanos somos equivalentes a um bolinho de terra, daqueles que costumávamos fazer na infância, enfeitando com flores, minhocas e tatuzinhos de jardim. E claro, oferecendo o banquete elaborado ao irmão mais novo. Sorrio. Lembro que fiz um anjo de argila, quebrou-se meses depois de tê-lo ofertado no dia dos pais. Anjo frágil! Sorrio. Levanto e saio!

Abro a geladeira: frutas, verduras e carnes. Da geladeira os legumes, dos legumes a horta, da horta ao esterco, do esterco ao pasto, do pasto às infinitas vacas, das infinitas vacas ao desmatamento desenfreado, do desmatamento assassino ao farelo de soja transgênica, do farelo de soja transgênica ao Ades, do Ades a minha geladeira. Fecho a geladeira! Ligo a TV: Gisele Bündchen me seduz com seus produtos a base de argila. Use e abuse: são naturais e puros! Mudo de canal: “solo contaminado na década de 1970 por DDT pode ter causado a morte de 240 ex-guardas no Acre”. Desligo a TV.
Olho para fora e dois beija-flores disputam o bebedouro, por um pouco de água artificial, posta por mim para alegrá-los e alimentá-los. Eventualmente, abelhas sedentas por néctar pousam ali.

Abelha, abelhas! Decididamente o solo é invisível a elas, aos ex-guardas, a Gisele e a mim! Está ali, nos objetos, nos alimentos, na minha essência, na minha existência e nos tatuzinhos de jardim. Usado, revolvido, aterrado. Tem sido despido de suas florestas, pele que o protege. Forçosamente tem sido mascarado por extensos pastos e/ou plantações, nunca antes nutridas por ele, mas deve frutificar e por isso é banhado, adubado e envenenado. Explorado e exaurido de suas riquezas, está virando deserto, está virando pó. Ainda há esperança? Sim! Como não? Virou cosmético, virou spa virou terapia, virou mercadoria, virou módulo rural, virou latifúndio, virou asfalto, virou chão! A terra, que Deus criou, para então nos criar, e permitir nossa procriação, foi dada a nós! Quisera Deus ter pensado duas vezes!

E não pensou! Mas ironicamente, vejo eu, a Gisele, os ex-guardas e nossos iguais esquecendo que habitamos essa pele, esse solo. Necessitamos da sua existência, e os tatuzinhos de jardim, as abelhas e os beija-flores também. O solo? Ele não! Solo é rocha bruta triturada, intemperizada, erodida, é cíclico, muda, evolui, desenvolve-se, renova-se! Mas a uma velocidade outra, superior a mim, ao agronegócio, as abelhas, ao tatuzinho de jardim, a Bündchen, ao Ades, a Bíblia!

Vasily Dokuchaev
Mogi Mirim

por Daniela Lanza

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