“History of the entire world, I guess”

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“History of the entire world, I guess”

A crise da Síria em 15 mapas e 1 texto

Quero escrever alguma coisa, mas não tenho forças e nem sei por onde começar. É tanta frase vazia, é tanto “achismo”, é tanta opinião desarrazoada que tenho medo do futuro dos seres humanos que ainda vivem nesse planeta. Vivemos uma fase onde há muita opinião sendo compartilhada, mas pouca reflexão e muito menos discussão.

Me parece fundamental conhecer a história moderna da humanidade, antes de manifestar qualquer opinião sobre os trágicos acontecimentos que testemunhamos na Europa, na África e no Oriente Médio. Se não nos debruçarmos sobre os fatos históricos que nos fizeram chegar até aqui, seremos, apenas, mais alguns dos fantoches facilmente manipulados pelas mídias e pelas grandes potências interessadas no caos e na manutenção da guerra.

O islamismo foi a última religião monoteísta a ser criada, derrotando o império romano e dominando a região que hoje forma Síria, Líbano, Irã, Iraque e Jordânia. Foi nessa época que as cruzadas cristãs, vindas da Europa, invadiram o oriente para recuperar aquele território, usando, desde então, o nome da religião. O mesmo aconteceu com missões de Jesuítas que vieram ao Brasil para evangelizar nossos índios e ocupar nossas terras, mas essa é uma outra história.

Bom, depois dessa confusão inicial, quem se instalou por 600 anos nesse espaço foram os turcos que fundaram o Império Otomano e ocuparam essa região petrolífera até o começo da primeira guerra mundial. Com o império enfraquecido e o fim da guerra (1918), surgiram os acordos “de paz”, a Conferência de Paz de Paris e o Tratado de Sévres. Mas, o que quase ninguém sabe é que antes, ainda em maio de 1916, houve a assinatura do acordo secreto Sykes-Picot, firmado entre França e Reino Unido. E, aqui, meus caros, a situação – que já era estranha, começa a ficar feia de verdade.

Porque esse acordo foi secreto? Porque a França e o Reino Unido resolveram decidir, só entre eles, quem ficaria com que parte da região do antigo Império Otomano. Sabe quando os países da Europa resolveram pegar uma régua e desenhar, reunidos na Alemanha, os contornos e as fronteiras dos países africanos? Pois é, foi mais ou menos o mesmo que aconteceu aqui: O Reino Unido recebeu o controle dos territórios correspondentes, grosso modo, à Jordânia e ao Iraque e a França ganhou o sudeste da Turquia, da Síria, do Líbano e o norte do Iraque. Quem tiver a curiosidade de olhar o mapa mundi, vai perceber que a Síria tem uma riqueza bastante óbvia: Uma importante saída para o mar. E a quem isso interessa? Ao capital, meus caros!

Mas, para que esse plano funcionasse, os europeus precisavam contar com a ajuda dos cidadãos locais e, por isso, prometeram doar uma parte daquele território, onde a população árabe viveria em paz. Tipo assim: Eu entro na sua casa, ocupo todos os cômodos, mas deixo você morando, feliz, na garagem. Então foi aqui, depois do fim do Império Otomano, que, para fragilizar e segregar o povo árabe, foram formados diferentes países, como a Síria, o Líbano e a Jordânia. Essas pequenas nações passaram a viver sob o controle direto da França e do Reino Unido, mantendo governos de fachada, inteiramente submissos aos desejos europeus. Esse cenário dominou a história até que os países europeus foram expulsos, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

A partir deste marco histórico, as relações entre os países vizinhos se tornaram cada vez mais frágeis, os golpes de estados se sucedem e a ideologia laica, conhecida como Baath, (o sonho de construir uma única nação árabe, com influência socialista) se espalhou. É nesse momento que Hafez al-Assad, pai do Bashar al-Assad, assumiu o posto de Chefe de Estado e nacionalizou o Petróleo, ao mesmo tempo que Saddam Hussein avocou o controle do Iraque. Significa dizer que, em plena guerra fria, o poder na Síria, passou a se concentrar nas mãos da minoria Xiita, laica, que representa apenas 13% da população, despertando questionamentos por parte da maioria Sunita. Esse é o sentimento que motivou a criação de uma célula sunita, formada por muçulmanos radicais e influenciada por grupos terroristas, que pegaram em armas para demonstrar sua insatisfação com a política local. Como diria Weber: “Não existe vácuo de poder” e, não me parece surpreendente que apareça, dentro desse contexto, uma célula extremista que ficou conhecida como ISIS.

Para dizer o óbvio, é importante sublinhar que nem todos da maioria Sunita são muçulmano radicais. Nem todos os muçulmanos são radicais. E, por fim, nem todos os radicais fazem parte da criação do chamado Estado Islâmico.

E, agora, chegamos aos dias atuais. Os países que apoiam o regime de Bashar al-Assad são Rússia, Irã e China. A oposição é apoiada pela Turquia, Arábia Saudita, Reino Unido, Estados Unidos e França. Nesse contexto, Rússia e França fazem mais um dos seus acordos secretos, determinando, dessa vez, suas zonas de bombardeamento para que uma não atrapalhe os ataques da outra. Esses bombardeios acontecem livremente em diferentes áreas do país e são noticiados em meio a várias outras pílulas midiáticas, com um ar de cotidiano, como se não fossem importantes. As potências justificam os bombardeios, dizendo que estão caçando terroristas da célula radical, mas esquecem de noticiar as mortes de civis que ainda estão perdidos dentro dessa bomba relógio.

Uma pergunta que precisa ser feita é: De onde vêm as armas, as munições e o resto do material bélico usado pelo exército e pelos rebeldes na síria? Quem fornece? Quem manda entregar lá? Nos últimos cinco anos, os Estados Unidos dirigiram uma campanha anti Assad que levou ajuda financeira para os rebeldes que lutavam no país. Repito: Se nos negarmos a refletir essas questões, estaremos fazendo parte da massa de manobra que apoia uma guerra perversa que matou, mata e matará muitos outros inocentes.

Muito falamos dos refugiados sírios, mas não falamos que quem consegue chegar na Europa é uma parte ínfima desta população. A grande maioria civil continua presa nos rincões do país ou nos campos das fronteiras terrestres. Todas as estatísticas, aqui, são completamente abomináveis. Os refugiados são pessoas que fogem desses mesmos inimigos e que tiveram sua vida marcada pela ação de terroristas. Refugiados são as vítimas da ambição de países que desenham, recortam e dividem territórios no papel, esquecendo que neles, vivem seres humanos.

Os parisienses não foram as primeiras vítimas desse conflito e não serão as últimas. É preciso pensar em soluções, relembrando as experiências desse passado recente. Não, a Europa não está em guerra! A França foi atacada por 7 indivíduos, ao passo em que existem mais de 250 mil mortos na Síria em nome de uma política ocidental delirante.

É preciso pensar em ações que não se limitem à mera troca de bombardeios e que queiram levar a paz para uma região que, historicamente, só conhece a guerra que lhes foi imposta. Mas, será que essa é a vontade daqueles que detém o poder? Será que a paz é o que as grandes nações, de fato, querem?

por Gabriela Cunha Ferraz

Fonte: PensadorAnonimo.com.br

A crise da Síria em 15 mapas e 1 texto